domingo, 22 de junho de 2014

Jogos Jurídicos - pior impossível



Os Jogos Jurídicos aconteceram nesse feriado de corpus christi e terminaram dia 22/06. E olha, te falar que eu to PORAQUI com esse assunto. Francamente? Eu não tenho estômago pra aturar jogos jurídicos e gente de Atlética não. Fico impressionada com quem tem e com quem consegue ir nessas paradas. Uma amiga falou que não foi, mas que uma amiga dela foi e disse que, a despeito de todo o bafafá que rolou na UERJ por causa da imagem do coiote estuprando uma menina da Nacional (Faculdade Nacional de Direito – FND/UFRJ), NADA MUDOU: continuaram as músicas de machismo e racismo. Claro que não mudou! São os JOGOS JURÍDICOS. [Os jogos jurídicos, pra quem não sabe, são jogos interuniversitários do Brasil inteiro. Acontecem duas vezes por ano e englobam as faculdades de direito do brasil]

Coiote, o mascote da UERJ, estupra uma garota da Nacional (Faculdade Nacional de Direito - FND/UFRJ)


A galera da UFF estendeu essa faixa que ta aí. E pode acreditar que vão falar que foi pra EXALTAR as mulheres da UFF. "Exaltar", como se a UFF fosse uma escola formadora de misses e musas dos jogos. E eu aqui pensando que a UFF era uma universidade. O machismo é estrutural e tão intrincado na nossa sociedade, que esse tipo de conduta é feita pra "exaltar" e é entendida dessa maneira, mesmo. O que está aí é mais uma vez a objetificação da mulher, é mais uma vez colocar a mulher no lugar de "adorno"/objeto de decoração. Não haveria uma faixa "Os caras da UFF são capas da G Magazine", mas sim "os caras da UFF são jogadores/brutamontes/guerreiros" -- percebe a assimetria??


Faixa produzida pela UFF estendida nos jogos"As mulheres da UFF são capas da playboy"
E não é falar de ~moralismo~ ser contra esse tipo de coisa não. A Marcha das Vadias, por exemplo, é um movimento de liberação sexual e autonomia do corpo. O que esses caras tao dizendo nao é que "mulher tem que ter liberdade pra mostrar o corpo", mas que "mulher pra ter valor tem que estar dentro dos padrões de beleza socialmente estabelecidos, que são os que as colocam na capa da playboy". Não é um discurso empoderador. Ao contrário, é um discurso objetificador.

E você pode achar que a gte tem que ocupar aquele espaço e tentar construir ele de forma diferente. Eu discordo completamente de que tenhamos que estar nesses espaços. Os jogos jurídicos não são espaços para mulheres, são espaços de homens. Eles nos querem lá seguindo as regras DELES. Quando a gte vai e paga pra Atlética levar a gente, a gte tá FINANCIANDO DIRETAMENTE uma estrutura extremamente opressora. Uma amiga foi sem ônibus. Pagou R$ 250,00 de alojamento (espaço pra montar barraca) + R$ 160,00 pras 3 festas. Eu vou frequentemente ao ENUDS (Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual) e a congressos de gênero, aonde pago 40 reais pra alojamento COM almoço E jantar. E as festas são gratuitas, o que possibilita que qualquer pessoa vá. Vende-se cerveja lá, cada um bebe o q pode pagar. E eu sei que as festas dos JJ são open bar, mas cobrar 160 reais pras festas significa dizer: ou vc paga isso ou nao tem acesso ao espaço de recreação, socialização, confraternização. A gente tem, sim, que pautar o machismo nos Jogos e na Atlética, mas na nossa casa, na nossa universidade e não indo aos Jogos. Quando vamos, estamos apoiando e, ao meu ver, reforçando todas aquelas práticas.

Eu sei que há pessoas que vão pq querem socializar, mas temos TANTOS espaços pra isso. Ao meu ver, estar nesses espaços "só" pra socializar é uma forma de "se curvar" a tudo que tá presente ali e que "possibilita" a socializaçao. Digo.. o que une essas pessoas? A competitividade entre as universidades. Mas não só isso. Tb os une o machismo, o racismo, a homofobia, a transfobia, a lesbofobia, a gordofobia. Eu fico mto preocupada MESMO com as pessoas se "curvarem" a isso ou sentirem q "precisam" se curvar a isso.
Sabe? Quem sao as pessoas que tão excluídas dali? As mesmas pessoas que a sociedade exclui e explora: as negras, as gordas, as lésbicas masculinizadas, os viados afeminados, as pessoas de baixa renda. É MUITO processo de exclusão!


Não acho que seja impossível de mudar esse cenário, que os JJ vão ser sempre assim; tb não acho que o Direito vá ser sempre assim; não acho MESMO. Não acho q nada seja impossível de mudar, faço militância feminista justamente pq acredito que TUDO pode mudar. Eu trabalho dentro do Direito com teoria crítica dos direitos humanos justamente porque eu acredito que o Direito pode ter, SIM!, papel transformador e emancipador. Mas há que se pensar na forma de atuação pra essas mudanças e eu to convencidíssima que não é participando dos Jogos, que muito mais endossa os processos de exclusão do que qualquer outra coisa, ao meu ver.

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