quarta-feira, 26 de março de 2014

Quem tem medo do privilégio?

No debate de ontem, após a exibição do média-metragem "O Fracasso dos Estereótipos de Gênero", uma das debatedoras começou a mesa dizendo que a gte precisa "sujar o feminismo e se preocupar com as empregadas domésticas, com as negras". E que ela, precisa se policiar pra não cair no feminismo mainstream, porque é branca, classe alta, cis (apesar de ela não ter usado essa categoria, é), Acadêmica, ainda por cima deu o azar de ser hetero - pq nem tdas as feministas têm a sorte de ser lésbicas, algumas têm suas limitações. Juro, eu quase chorei por ela (sqn)



Ok, entendo q ela quis fazer menção a sair do feminismo mainstream branco/classe média alta. Mas SUJAR o feminismo? Bom. Eu acredito muito na força dos discursos e na necessidade da gente tomar cuidado com as palavras q usa. E que feminismo é o constante questionamento, que a gente tem que estar constantemente desconfiando das nossas ações, atitudes e discursos, para não reproduzir opressão e não reforçar assimetrias e exclusão. E eu falei isso quando me inscrevi. Principalmente porque a fala dela abriu espaço pro que veio logo depois: um homem cisgênero, não sei de q orientação sexual, levantou a mão e falou que as mulheres feministas abrem mão do privilégio de não trabalhar que o patriarcado lhes confere. Vc não leu errado. Ele falou do PRIVILÉGIO DE NÃO TRABALHAR QUE O PATRIARCADO NOS CONFERE. Aí antes eu quase tinha chorado com a debatedora, dessa vez eu quase levantei pra dar um beijo no rapaz e agradecer pelo PRIVILÉGIO (sério, eu fico chocada com a seleção de palavras, q não pode ser despropositada!).

A minha resposta pra ele foi de que a gente tem que cuidar com o que fala, q o patriarcado não traz PRIVILÉGIO pra mulher nenhuma e que, além do mais, as mulheres sempre trabalharam dentro e fora de casa. Algumas mulheres não, porque as suas posses hereditárias lhes permitem não trabalhar. Mas que isso é, no máximo, um benefício - JAMAIS um PRIVILÉGIO.

Só q eu não fiquei tao contente assim com a minha resposta e hoje no banho (banho é ótimo pra epifanias) eu fiquei pensando sobre isso... E cheguei aqui: Você não pode, efetivamente, falar em privilégio para mulheres no patriarcado. Por um motivo simples: privilégio é algo do que eu tenho direito e que é negado a você por características ontológicas. Não é algo conquistado por mim, mas algo que me veio porque a sociedade é estruturada de uma forma a manter as relações assimétricas de poder e daí eu, por nascer numa família X, ou por ser da cor X, ou do gênero X, ou da sexualidade X, tenho acesso, mas você que não é algum desse X não tem acesso ou, se tem acesso, o tem de forma muito dificultada. Então DE NOVO: vamos tomar cuidado com o que a gente fala, porque os conceitos são caros e precisam ser contextualizados.

Uma mulher ter PRIVILÉGIO no patriarcado significa que ela acessa algo que um homem não acessaria. Calma. Se uma mulher não trabalha e vive uma vida sem privações materiais é pq a família dela tem grana - ou pq ela se casou com um cara cuja família (e ele) tem grana. E ainda assim, ela não trabalhar é uma escolha - ela hoje, na sociedade q a gte vive, ESCOLHE não trabalhar. Não pq ela é mulher, mas porque ela é de classe média alta/ classe alta. Então o privilégio do qual ela está diante é um privilégio de CLASSE e não um privilégio de gênero, como o cara trouxe q era. Pq, de novo, as mulheres pobres SEMPRE trabalharam e as que não trabalham o fazem pq são ricas e não pq são mulheres, da mesma maneira q os homens pobres sempre trabalharam e os homens que não trabalham é pq são ricos e não porque são homens.

Conclusão disso? É que precisamos pensar em interseccionalidade. Nenhumx de nós tem apenas uma identidade, temos várias. Eu sou mulher cisgênera, mas sou também branca, sou também de um extrato social determinado, tenho inserção em um Mercado elitizado, tenho nível de educação institucional determinado, sou de uma sociedade cujo marco civilizatório é ocidental. As opressões se acumulam de acordo com as nossas identidades. Não dá pra falar de uma sem levar em consideração as outras e falar de PRIVILÉGIOS de uma mulher dentro do patriarcado é como falar do privilégio das pessoas negras dentro de uma sociedade racializada branca, do privilégio das pessoas pobres dentro do capitalismo. Quer dizer.. Não faz sentido.

Um comentário:

  1. A segunda fala, a do cara, parece muito ironia, LOL. Belíssimo Heloisa!

    ResponderExcluir