Em tempos de muito ódio circulando, eu quero falar um pouco sobre o amor. Porque eu acho que tá faltando falar do amor. E o amor renova a gente, o amor tira a gente da cama com vontade de viver e de lutar por dias melhores que virão. Eu escrevi um texto sobre o amor faz um tempo. Não sei por que, ainda não publiquei. Talvez estivesse faltando chegar o momento de hoje.
Tava conversando esses dias com uma amiga sobre acreditar no amor que vai durar até o fim da vida. Aquela historia de planejar vida juntes, envelhecer juntes, programar viagens, até mesmo mudanças. Na verdade eu andei falando sobre esse assunto com mais de uma pessoa. Acho que esse tema é recorrente e bem presente nas nossas vidas, muitos papos giram em torno ou tocam nesse assunto.
E essa amiga falou que acredita nisso com uma pessoa muito especial.
Eu falei pra essa amiga que eu acredito e quero isso pra mim, planejar vida, envelhecer junto. Mas que ao mesmo tempo que eu quero isso, eu entendo que sou "vítima do amor romântico" e que, bem, a grande maioria das pessoas também é. E problematizando isso, olhando pra dinâmica das relações sociais e trazendo pra minha vida pessoal ("cada uma sabe a dor e a delícia de ser o que é"), bem, trazendo isso pras minhas experiências de vida, eu quero isso e acho que isso é muito possível. Com amigues.
Eu assisti Grey's Anatomy até a 9a temporada - parei de ver pq haja choradeira! A personagem que dá nome à série tem uma baita amizade com uma mulher que é distante com a grande maioria de pessoas, mas não com a Grey e ambas são heterossexuais, casadas e monogâmicas, mas tratam uma à outra de "my person" ("minha pessoa"). É bem esse conceito da ~metade da laranja~.
Eu posso nomear talvez 2 ou 3 amigues com quem eu hoje acho que vou envelhecer junto. E não são todes amigues de infância. Um é, apesar de não sermos amigues desde a infância. E daí me fez pensar nisso também.. Talvez a falta ou escassez de amigues de infância seja pq a gte cresce e fica diferente. Principalmente quem não é heterossexual e/ou não é cisgênere, quem é feminista, sei lá, quem tem uma vida não-normativa ou quem faz de sua vida pessoal uma prática política. E não necessariamente as pessoas da nossa infância seguem o nosso mesmo caminho, o que pode nos distanciar. Alguns distanciamentos são transponíveis pelo amor - quando há respeito mútuo; mas alguns distanciamentos são.. irreversíveis. Existem diferenças que são inconciliáveis.
Com a construção da identidade na vida jovem e adulta a gente vai topando com pessoas que pensam parecido com a gente, que têm histórias de vida semelhantes, com quem temos convergência política e são essas pessoas com quem a gte acaba construindo e ressignificando nossas próprias identidades (geralmente esse processo é multi-lateral e retroalimentado, então tanto a gte qto as pessoas com as quais a gte se cerca, todes nós vamos mudando e nos acompanhando. Com o passar do tempo, nenhume de nós continua e mesme, o que continua é a vontade de estar juntes, de construir juntes.
Eu gosto de namorar, gosto de me apaixonar, eu gosto de ficar boba. Eu acredito no amor romântico problematizado, politizado e nos acordos que sejam respeitados. Pra mim monogamia ou não-monogamia são opções igualmente boas e negociáveis, cada relacionamento tem suas necessidades e, como diz uma pessoa querida, a gte precisa ter delicadeza pra se relacionar com as pessoas. E se eu quero ter uma relação romântica-afetiva-sexual com alguém até a velhice? Não sei dizer. Mas acho que aquelas pessoas, a quem vou chamar de "amigues de juventude" (no meu caso, pq é a fase de vida mais próxima) são as pessoas com quem a gente vai envelhecer.
Me vejo no futuro jogando xadrez na pracinha e alimentando os pombos - falando mal da vida de alguém, ctz. E se eu pudesse prever com quem seria, minha aposta é de que seria algume dessxs amigues relativamente recentes e tenho certeza de que um dos nossos papos recorrentes seria pegação, pq FATO que vamos ser velhinhes saçariqueires.
Publicado originalmente em: https://www.facebook.com/heloisamelino/posts/10204445554769442
quinta-feira, 2 de julho de 2015
terça-feira, 2 de junho de 2015
Dia internacional de luta das prostitutas
As prostitutas que conheci/conheço são putas. Puta professoras, puta feministas, puta militantes e ativistas. Com elas aprendi muitas coisas - coisas que a universidade não me ensinou. Dentre as coisas mais importantes que aprendi, aprendi novas linguagens, novas formas de ativismo, aprendi força, garra, aprendi coragem, ousadia, aprendi libertação, aprendi festividade, aprendi a gargalhar com coisas que eu não conseguia, aprendi que tenho comer muito arroz com feijão e açaí pra se um dia quiser ter a disposição que tem Indianara Alves Siqueira, Monique Prada, Amara Moira e outras mulheres cis e trans que tive o privilégio de conhecer.
No dia 02 de junho de 1975 a luta de prostitutas francesas contra a criminalização de sua atividade profissional marcou o calendário ocidental como um dia de lutas. E hoje marcamos 40 anos desse dia. Ainda tamos aí com muitas limitações em todo canto - na direita conservadora religiosa, na esquerda conservadora e moralista e até em feminismos excludentes.
Dizem que as feministas não podem ser feministas, que o que elas fazem só serve para alimentar uma sociedade patriarcal e de exploração das mulheres. A elas Gabriela Leite respondeu certa vez: "Eu não posso ser feminista porque sou prostituta? Pois eu sou uma PUTA feminista!!".
Indianara e Monique Prada arrebatam: "E se nós desaparecêssemos? Se todas as mulheres que fazem programa desaparecerem, o patriarcado desaparece junto? Não."
Os programas do Governo querem falar em saúde das prostitutas só falando em HIV/AIDS, mas como certa vez disse Gabriela, "o único financiamento que sempre nos deram foi pra AIDS e nós não queremos isso. Porque prostituta é mulher e não têm doença só da cintura pra baixo. Saúde da mulher é saúde da mulher. [...]O dia que se pensar na mulher como mulher, nós voltamos a conversar."
As redes de prostituas hoje levam a pauta da Regulamentação da Prostituição. E ô! Como elas incomodam. Incomodam porque acham que prostituição só pode ser exploração e que as prostitutas precisam é ser salvas. Sobre o projeto, Monique é direta: "A regulamentação da prostituição nos tira de debaixo do tapete".
Indianara, sempre muito incisiva em seus posicionamentos, responde às críticas: "E assim, sinceramente? Nós putas não temos culpa de porra nenhuma da exploração da mulher na sociedade patriarcal e machista. A culpa é da sociedade patriarcal e machista. E se as putas existirem ou deixarem de existir, as mulheres vão continuar sendo exploradas. Não quer dizer que se as putas forem regulamentadas ou não forem regulamentadas as mulheres vão ser mais ou menos exploradas. Não vejo dessa maneira. É uma arrogância achar que sabem o que é melhor para a gente. Nós da Rede Brasileira de Prostitutas é que nos reunimos e decidimos que a regulamentação pra nós é MENOS exploração. 'Ah, mas está regulamentando o cafetão'. Não estamos regulamentando o cafetão. O que estamos regulamentando são justamente espaços que nós trabalhamos, com as pessoas que mantém esses espaços e nós, por estarmos ali, essas pessoas são consideradas como facilitadores de prostituição, como exploração sexual de pessoas e essas pessoas são presas por uma lei justamente retrógrada, antiquada, que diz que você pode ser prostituta, mas não pode se prostituir num local seguro. Tem que se prostituir na rua, exposta a uma polícia agressora, uma polícia que está aí e que foi formada e continua sendo formada pra lutar contra a regulamentação. [...] A polícia militar foi treinada na ditadura pra combater pessoas que lutavam por seus direitos e ela vai continuar combatendo quem luta por seus direitos"
Ahhh a "regulamentação do cafetão" - como se atrizes, atores, ginastas olímpicos, lutadoras e lutadores de MMA, boxe ou judô não tivessem agentes intermediários ou não usassem do próprio corpo para trabalhar: "As casas precisam existir – sem elas, muita gente não ia conseguir trabalhar. Mas da maneira que elas existem hoje, não são boas para quem trabalha. O projeto de regulamentação fixa que 50% da renda do programa fica com a garota. Acho uma boa medida. Com a regulamentação, a menina poderá cobrar o que a casa lhe deve. Hoje, se a casa não quiser pagar nem um real no final da semana, a pessoa não recebe. A garota não tem a quem recorrer." diz Monique.
Isabel* (nome fictício), sobre o mesmo tema fala "A PL vai dar garantia da gente de poder trabalhar, de ter um local seguro. As mulheres também que não têm condição de alugar um lugar, de ir trabalhar com outras pessoas, que têm o direito de ter de 1 a 50%, que vai ser acordado entre ambas as partes. Vai nos empoderar bastante e diminuir bastante a violência contra as prostitutas. [...]
A polícia tem q ter o papel fundamental de nos defender e não de nos agredir. Hoje o maior violador dos direitos das prostitutas é a polícia e o Estado, não o cafetão. [...] O empresário também tem q ter o direito dele garantido. Ele vai manter a casa pra gente trabalhar e não vai lucrar nada? Tem que ter a lei pras duas partes.
A gente como prostituta tem que ter segurança da polícia - a polícia hoje não nos protege, a polícia só entra pra bater, estuprar, roubar e prender. E o dono de estabelecimento também tem q ter a segurança de que vai ter o local dele de trabalho. [...] Uma cabeleireira tem direito de ter segurança, o dono da farmácia tem direito de ter segurança, o advogado tem direito de ter segurança. Por que a prostituta não pode ter segurança? Porque quem faz a nossa segurança é dado como miliciano. Isso é errado. A gente tem que ter segurança como qualquer trabalhador."
"como qualquer trabalhador" - e veja lá se essa sociedade hipocritamente moralista quer encarar a clandestinidade que o estigma da prostituição causa. O problema tá em que? Em elas também quererem algo parecido com uma CLT? Ou em quem pode dizer o que é melhor para as prostitutas? São as pessoas da universidade, as mulheres e homens que não se prostituem ou são as próprias prostitutas que falam por si e não podem ter suas vozes silenciadas? Indianara Sophia Fênix responde sobre o Projeto: "Fomos nós, da Rede Brasileira de Prostitutas quem decidimos que a regulamentação da prostituição tem que ser dessa maneira. Então as pessoas que não são prostitutas, que simplesmente se calem e aceitem. Podem debater o assunto, mas aceitem o que pessoas organizadas, o que prostitutas decidiram, se não é desqualificar essas pessoas e dizer que elas não são capazes de decidir por elas mesmas."
E quem não se prostitui? "Como apoiar o movimento de prostituição? Eu acho que é tentando ver a prostituição de uma forma mais leve e dentro da sociedade. Dentro de parâmetros metodológicos, filosóficos que dizem respeito à nossa sociedade e sexualidade. Ver todo sentido do corpo, o que pensamos sobre nosso corpo. O que é proibido e o que não é proibido. Porque existem coisas proibidas no nosso corpo. Por isso tanta questão com a prostituição. Tudo que diz respeito à sexualidade é proibido, de discutir e tudo mais. Então, se todo mundo começar, individualmente, a repensar a sua visão, ajuda não só a nós no Brasil, mas a todo mundo na prostituição e fora da prostituição."
AUTONOMIA SOBRE O PRÓPRIO CORPO - não é disso que a gente fala quando fala de combate à cultura de estupro, de descriminalização do aborto, de antiproibicionismo, de liberdade de orientação sexual, do reconhecimento da identidade de pessoas trans?!
Eu só tenho a dizer a essas mulheres corajosas e incríveis: MUITO OBRIGADA por me darem a oportunidade de aprender vida com vocês. Vocês são incríveis <3
OBS: Todas as falas vêm de entrevistas a jornais, revistas, canais do youtube, palestras, conferências. Se alguém quiser os links pra conhecer mais o que essas mulheres se dispuseram a nos ensinar, podem me pedir os links ou seguir os perfis das moças que marquei durante o texto e seus blogs:
Indianara Siqueira: https://www.facebook.com/indianara.siqueira?fref=ts
Monique Prada: http://acortesamoderna.com.br/
Amara Moira: http://www.eseeufosseputa.com.br/
Um pouco sobre Gabriela Leite pode ser conhecido via Um beijo para Gabriela: https://www.facebook.com/pages/Um-Beijo-para-Gabriela/344616068946147?fref=ts
Você também pode acompanhar o Observatório da Prostituição: https://www.facebook.com/observatoriodaprostituicao?fref=ts
No dia 02 de junho de 1975 a luta de prostitutas francesas contra a criminalização de sua atividade profissional marcou o calendário ocidental como um dia de lutas. E hoje marcamos 40 anos desse dia. Ainda tamos aí com muitas limitações em todo canto - na direita conservadora religiosa, na esquerda conservadora e moralista e até em feminismos excludentes.
Dizem que as feministas não podem ser feministas, que o que elas fazem só serve para alimentar uma sociedade patriarcal e de exploração das mulheres. A elas Gabriela Leite respondeu certa vez: "Eu não posso ser feminista porque sou prostituta? Pois eu sou uma PUTA feminista!!".
Indianara e Monique Prada arrebatam: "E se nós desaparecêssemos? Se todas as mulheres que fazem programa desaparecerem, o patriarcado desaparece junto? Não."
Os programas do Governo querem falar em saúde das prostitutas só falando em HIV/AIDS, mas como certa vez disse Gabriela, "o único financiamento que sempre nos deram foi pra AIDS e nós não queremos isso. Porque prostituta é mulher e não têm doença só da cintura pra baixo. Saúde da mulher é saúde da mulher. [...]O dia que se pensar na mulher como mulher, nós voltamos a conversar."
As redes de prostituas hoje levam a pauta da Regulamentação da Prostituição. E ô! Como elas incomodam. Incomodam porque acham que prostituição só pode ser exploração e que as prostitutas precisam é ser salvas. Sobre o projeto, Monique é direta: "A regulamentação da prostituição nos tira de debaixo do tapete".
Indianara, sempre muito incisiva em seus posicionamentos, responde às críticas: "E assim, sinceramente? Nós putas não temos culpa de porra nenhuma da exploração da mulher na sociedade patriarcal e machista. A culpa é da sociedade patriarcal e machista. E se as putas existirem ou deixarem de existir, as mulheres vão continuar sendo exploradas. Não quer dizer que se as putas forem regulamentadas ou não forem regulamentadas as mulheres vão ser mais ou menos exploradas. Não vejo dessa maneira. É uma arrogância achar que sabem o que é melhor para a gente. Nós da Rede Brasileira de Prostitutas é que nos reunimos e decidimos que a regulamentação pra nós é MENOS exploração. 'Ah, mas está regulamentando o cafetão'. Não estamos regulamentando o cafetão. O que estamos regulamentando são justamente espaços que nós trabalhamos, com as pessoas que mantém esses espaços e nós, por estarmos ali, essas pessoas são consideradas como facilitadores de prostituição, como exploração sexual de pessoas e essas pessoas são presas por uma lei justamente retrógrada, antiquada, que diz que você pode ser prostituta, mas não pode se prostituir num local seguro. Tem que se prostituir na rua, exposta a uma polícia agressora, uma polícia que está aí e que foi formada e continua sendo formada pra lutar contra a regulamentação. [...] A polícia militar foi treinada na ditadura pra combater pessoas que lutavam por seus direitos e ela vai continuar combatendo quem luta por seus direitos"
Ahhh a "regulamentação do cafetão" - como se atrizes, atores, ginastas olímpicos, lutadoras e lutadores de MMA, boxe ou judô não tivessem agentes intermediários ou não usassem do próprio corpo para trabalhar: "As casas precisam existir – sem elas, muita gente não ia conseguir trabalhar. Mas da maneira que elas existem hoje, não são boas para quem trabalha. O projeto de regulamentação fixa que 50% da renda do programa fica com a garota. Acho uma boa medida. Com a regulamentação, a menina poderá cobrar o que a casa lhe deve. Hoje, se a casa não quiser pagar nem um real no final da semana, a pessoa não recebe. A garota não tem a quem recorrer." diz Monique.
Isabel* (nome fictício), sobre o mesmo tema fala "A PL vai dar garantia da gente de poder trabalhar, de ter um local seguro. As mulheres também que não têm condição de alugar um lugar, de ir trabalhar com outras pessoas, que têm o direito de ter de 1 a 50%, que vai ser acordado entre ambas as partes. Vai nos empoderar bastante e diminuir bastante a violência contra as prostitutas. [...]
A polícia tem q ter o papel fundamental de nos defender e não de nos agredir. Hoje o maior violador dos direitos das prostitutas é a polícia e o Estado, não o cafetão. [...] O empresário também tem q ter o direito dele garantido. Ele vai manter a casa pra gente trabalhar e não vai lucrar nada? Tem que ter a lei pras duas partes.
A gente como prostituta tem que ter segurança da polícia - a polícia hoje não nos protege, a polícia só entra pra bater, estuprar, roubar e prender. E o dono de estabelecimento também tem q ter a segurança de que vai ter o local dele de trabalho. [...] Uma cabeleireira tem direito de ter segurança, o dono da farmácia tem direito de ter segurança, o advogado tem direito de ter segurança. Por que a prostituta não pode ter segurança? Porque quem faz a nossa segurança é dado como miliciano. Isso é errado. A gente tem que ter segurança como qualquer trabalhador."
"como qualquer trabalhador" - e veja lá se essa sociedade hipocritamente moralista quer encarar a clandestinidade que o estigma da prostituição causa. O problema tá em que? Em elas também quererem algo parecido com uma CLT? Ou em quem pode dizer o que é melhor para as prostitutas? São as pessoas da universidade, as mulheres e homens que não se prostituem ou são as próprias prostitutas que falam por si e não podem ter suas vozes silenciadas? Indianara Sophia Fênix responde sobre o Projeto: "Fomos nós, da Rede Brasileira de Prostitutas quem decidimos que a regulamentação da prostituição tem que ser dessa maneira. Então as pessoas que não são prostitutas, que simplesmente se calem e aceitem. Podem debater o assunto, mas aceitem o que pessoas organizadas, o que prostitutas decidiram, se não é desqualificar essas pessoas e dizer que elas não são capazes de decidir por elas mesmas."
E quem não se prostitui? "Como apoiar o movimento de prostituição? Eu acho que é tentando ver a prostituição de uma forma mais leve e dentro da sociedade. Dentro de parâmetros metodológicos, filosóficos que dizem respeito à nossa sociedade e sexualidade. Ver todo sentido do corpo, o que pensamos sobre nosso corpo. O que é proibido e o que não é proibido. Porque existem coisas proibidas no nosso corpo. Por isso tanta questão com a prostituição. Tudo que diz respeito à sexualidade é proibido, de discutir e tudo mais. Então, se todo mundo começar, individualmente, a repensar a sua visão, ajuda não só a nós no Brasil, mas a todo mundo na prostituição e fora da prostituição."
AUTONOMIA SOBRE O PRÓPRIO CORPO - não é disso que a gente fala quando fala de combate à cultura de estupro, de descriminalização do aborto, de antiproibicionismo, de liberdade de orientação sexual, do reconhecimento da identidade de pessoas trans?!
Eu só tenho a dizer a essas mulheres corajosas e incríveis: MUITO OBRIGADA por me darem a oportunidade de aprender vida com vocês. Vocês são incríveis <3
OBS: Todas as falas vêm de entrevistas a jornais, revistas, canais do youtube, palestras, conferências. Se alguém quiser os links pra conhecer mais o que essas mulheres se dispuseram a nos ensinar, podem me pedir os links ou seguir os perfis das moças que marquei durante o texto e seus blogs:
Indianara Siqueira: https://www.facebook.com/indianara.siqueira?fref=ts
Monique Prada: http://acortesamoderna.com.br/
Amara Moira: http://www.eseeufosseputa.com.br/
Um pouco sobre Gabriela Leite pode ser conhecido via Um beijo para Gabriela: https://www.facebook.com/pages/Um-Beijo-para-Gabriela/344616068946147?fref=ts
Você também pode acompanhar o Observatório da Prostituição: https://www.facebook.com/observatoriodaprostituicao?fref=ts
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Quanto custa ou é por quilo?
Dia 19 de janeiro. Tenho um trabalho pra entregar dia 21 é uma dissertação pra concluir (antes disso, pra começar) e entregar antes de abril. Regime semi-aberto em prisão domiciliar para estudos.
Passei o dia em casa estudando, lendo, fazendo fichamento, buscando relaxar nos intervalos. Desci as 21:45 pro mercado, que fica na mesma galeria que meu prédio, o mercado fecha às 22:00. Eu queria comprar uma pizza pra comer quando desse fome.
Escolhi a menos ruim - não têm vendido mais a marca que eu gosto - e fui pra fila de caixa exclusivo pra cinco itens. Tinha mais três pessoas na minha frente. Atrás de mim chega uma senhorinha bem idosa, com um saco de arroz e um de feijão na mão, perguntando se a fila tava muito longa, eu disse que não. Ela vê a fila ao lado, a caixa está dando o troco pra um rapaz e atras dele, a próxima pessoa é uma moça, que tem por volta dos 36, 40 anos. Jovem. A senhorinha pergunta se pode passar, a moça, que tem o carrinho cheio, faz que não ouviu. A senhorinha passa pra fila seguinte, que tem cerca de 3 ou 4 pessoas também, todos idosos. O caixa em que a moça de seus trinta e tantos anos estava era preferencial pra idosos, eu vou até a moça e falo pra ela em tom tranquilo: esse caixa é preferencial - aponto a placa - e essa senhora só tem dois itens e parece bem cansada, será que ela pode passar? A moça fica brava, mas parece sem jeito de dizer que não e deixa. Enquanto eu vou buscar a senhorinha, que a essa altura estava escorada na pilastra da fila seguinte, ela pergunta pra funcionária do caixa se a fila 2 é preferencial, vira-se pra mim e diz: tá vendo? Ela disse que essa fila aqui não é preferencial, só a três, mas eu vou deixar passar pq não tenho nada a ver com isso. Eu agradeço e volto pra minha fila, a 1.
Uma senhora da minha frente contesta baixo comigo: a 2 é preferencial, sim. Sempre foi, eu venho sempre aqui. Eu consinto, também sei que é.
Chega um cara grande, forte, sem camisa e com cara de mau humorado, também com cerca de quarenta anos, pra se juntar à moça dos trinta e tantos. Vejo que cochicham algo e ele me olha bravo. Ignoro, nem olho de volta. Mas penso em saber se eu estava certa ou errada em apontar o caixa 2 como preferencial e procuro a gerente do mercado pra saber qual caixa é preferencial:
- O 2 e o 3.
- Olha, acho que seria bom conversar com a funcionária sobre isso, porque acho que ela não tá sabendo e a placa realmente é confusa. Uma senhorinha tentou passar ali, tinha uma moça jovem e a caixa disse que não era preferencial.
- Ah, claro, vamos ali conversar com ela então.
Fomos. O casal terminava de passar as compras deles. Quando a gerente se aproxima e fala com a funcionária do caixa, a moça que comprava se vira pra mim irritada:
- Você ainda tá nessa? Já deixei passar, ela já foi embora. Que saco!
- Olha, não é com você. Você, por acaso deixou, mas a funcionaria passou a informação errada porque não parece saber.
- Que saco, pq vc não cuida da sua vida, hein? Já foi, já passou! Ela respondeu bem mais irritada.
- Já falei que não foi com voce. E você, ainda que tivesse numa fila normal, ainda quase recusou que uma senhora passasse na frente, o mínimo que se espera quando se chega a uma idade como a dela deve ser respeito.
- AH QUER SABER??? VAI TOMAR NO CU!!! - gritou a mulher, ao que o acompanhante dela gritou também que eu fosse tomar no cu
- Vou, sim, porque eu gosto bastante. - respondi calma - e acho que vocês deviam experimentar também pq é muito bom. Ainda por cima acalma e vocês parecem precisar se acalmar.
- AHHH VÁ PRO INFERNO!!
- Que inferno o que? inferno deve ser a sua vida pra você estar criando essa confusão por causa de uma parada tao pequena dessa! - e fui andando embora, mas ouvi o cara pra mulher falando que ela tinha logo que virar a mão em mim que eu parava de graça, me enfiar logo a porrada.
A mulher respondeu que não faria isso, pq ainda por cima ia acabar em polícia e ele ficou instigando. O mercado inteiro já olhava e eu estava virada de volta pra eles, pois não queria ser surpreendida com um puxão de cabelo ou um soco na nuca do nada e quis mostrar que eu estava atenta:
- Claro que daria polícia. Tá maluco?Acha o que? Que eu tenho medo? Sai fora! - O cara se virou crescendo na minha direção:
- Se liga que se não te encho de facada!!
- Ah me enche de facada? - o cara era realmente muito grande - E você é machão assim só com mulher pequena ou sabe ser machão com homem grande também? - ele veio correndo na minha direção, eu fiquei encarando morrendo de medo, claro.
- VAI, CHAMA SEU MARIDO QUE EU ACABO COM ELE!! - continuei encarando e falei firme:
- E eu lá tenho cara de mulher que precisa de marido pra me defender? - me voltei pros seguranças do mercado e falei - Olha, esse cara tá aqui me ameaçando publicamente de me esfaquear. E aí? (Pq se fosse uma criança negra pequena roubando algo do mercado, os caras davam logo uma chave de braço e chamavam a polícia, mas como era um homem grande, forte, sem camisa e provavelmente perigoso ameaçando uma mulher, os caras tavam inertes)
Até que um segurança, sem uniforme, se levantou do banco em que estava sentado e gritou grosso:
- Aqui dentro da loja não vai ter confusão nenhuma não. E se você insistir muito, vou te levar la pra fora e acabar com a sua raça - e levantou a camisa pra mostrar que tava armado.
O cara encarou, saiu do mercado, chamou esse pra fora, ele ia. Eu segurei e falei baixo que eu era advogada e que se ele fosse eu ia ter que ir junto e que não valia a pena estragar a noite e sabe-se lá, a vida, por causa de um merda daqueles.
O casal porradeiro foi embora xingando. A mulher quieta, o homem gritando que era o cachorrão e que todo mundo conhecia ele, o mercado parado olhava estarrecido, as pessoas do lado de fora idem. Eu entrei na minha portaria, que é a 5 passos de distância da saída do mercado, aonde tudo aconteceu, expliquei pro porteiro é pra quem tava dentro o que tinha acontecido.
E o ~Cachorrão~ instigou a esposa/companheira a me enfiar a porrada, ameaçou me esfaquear e se sujeitou a tomar um tiro por causa de: um saco de arroz e um saco de feijão. Qual é o preço que tem a vida das pessoas?
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Que tipo de amor você quer?
Sobre pessoas oprimidas que também podem ser opressoras, sobre a necessidade de combate aos privilégios na sociedade e de auto-questionamento. Eu fiz esse post num grupo de discussões do qual participo. Um grupo de pessoas LGBT em que está havendo uma onda de reclamação por conta do que quem reclama chama de "politização do grupo" - o que é, na verdade, o combate às opressões.
___
Vamos falar de política e de gêneros, de feminismos, de combate às opressões. Abertamente.
A grande maioria de nós vem de famílias conservadoras, cis-heteronormativas, aonde o machismo é perpetuado, reforçado e atualizado. Não bastasse isso, quando somos inseridxs na escola, desde a creche, maternal, essa escola também é conservadora e também reforça todas essas normas em que a cisgeneridade é compulsória (cisnormatividade) e a heterossexualidade é presumida (heteronormatividade) e lá também aprendemos a atualizar o machismo, o racismo, o preconceito de classe, de origem, de corpos não-normativos.
Não pensem que isso é ser DESpolitizado. Não é. É ser politicamente alinhado à supremacia branca, à hegemonia cishetero e à dominação masculina.
A grande maioria de nós vem de famílias conservadoras, cis-heteronormativas, aonde o machismo é perpetuado, reforçado e atualizado. Não bastasse isso, quando somos inseridxs na escola, desde a creche, maternal, essa escola também é conservadora e também reforça todas essas normas em que a cisgeneridade é compulsória (cisnormatividade) e a heterossexualidade é presumida (heteronormatividade) e lá também aprendemos a atualizar o machismo, o racismo, o preconceito de classe, de origem, de corpos não-normativos.
Não pensem que isso é ser DESpolitizado. Não é. É ser politicamente alinhado à supremacia branca, à hegemonia cishetero e à dominação masculina.
Todas essas ideologias vêm sendo produzidas, reforçadas e atualizadas há séculos e com muito derramamento de sangue - vide as bruxas queimadas na inquisição, os povos assassinados pelas cruzadas, a escravização dos povos do continente africano, os brutais assassinatos de pessoas trans e de pessoas não-heterossexuais. Mas essas são as formas fáceis de apontar a dominação dessa ideologia dominante. A dominação também vem no discurso de ~humor~, também vem na mídia, nas propagandas, nos outdoores em que sempre vemos: pessoas felizes brancas, cis, heterossexuais, magras e sem deficiência física.
Isso que aprendemos em casa, nas escolas, na universidade, no dia a dia brincando no play, na televisão, nas revistas, nos jornais, na novela, no "sexo e as nêga": isso TUDO é POLÍTICA de dominação e normatividade.
- Quem domina? Homens, cisgêneros (nasceu com pênis, foi assinalado ao nascimento como homem e se identifica como homem), brancos, heterossexuais, ocidentais, cristãos e detentores de propriedade.
- Quem é dominadx? Quem deixa de ter qualquer uma das características acima.
- Quem é dominadx? Quem deixa de ter qualquer uma das características acima.
Tendo isso em mente, um homem cisgênero branco gay (que é a maioria das pessoas que está reclamando da politização dos debates) é alvo de dominação por não ser heterossexual, mas é potencial dominador/explorador/opressor a todas as pessoas que são negras, às mulheres, às pessoas trans, às pessoas que não são de cultura com marco ocidental, etc.
Nosso histórico fala por nós. Por sermos fruto dessa sociedade, todxs reproduzimos machismo, racismo, transfobia, homofobia. E para nós não estarmos do lado dominador das equações, o combate a essas opressões tem que ser diário. E não tô falando de parar o policial na rua quando ele tiver abordando um negro e meter o dedo na cara dele (apesar de achar que isso tb é nosso papel), to falando de combater diariamente os preconceitos que alimentamos dentro de nós mesmxs. É um exercício de auto-questionamento, auto-avaliação e atualização de si.
Como fazer isso, já que a sociedade escrotamente nos moldou? Ouvindo as mulheres falando sobre machismo, ouvindo as pessoas trans falando sobre transfobia, ouvindo as pessoas negras falando sobre racismo. Pode ser lendo blogs escritos por essas pessoas sobre esses assuntos, pode ser lendo livros de autoras negras, por ex, sobre feminismo negro, pode ser participando de rodas de conversa, mesas de debate e pode até ser PERGUNTANDO e pedindo explicação pelo facebook a pessoas que a gente veja que já tenham alguma inserção nesses debates. E uma pergunta não é uma acusação de grosseria, uma pergunta não é uma cobrança de explicação/convencimento, uma pergunta não pode ser uma pedra atirada que espera uma resposta em pétalas de rosas. Uma pergunta deve ser educada, deve ser gentil e deve se contentar com a(s) resposta(s) que a(s) pessoa(s) que vivencia aquilo sobre o que perguntamos fala. Quando vc pergunta algo e responde "Não me convenceu", vc está exigindo que a pessoa traga mais argumentos e está sendo arrogante porque está pressupondo que aquela pessoa QUER te convencer. Quando não quer. A pessoa tá te fazendo a gentileza de responder uma pergunta. Não se deu por convencidx? Peça a indicação de um blog, de um vídeo, de um artigo, peça a indicação de aonde vc pode ir para participar de uma roda de conversa sobre o tema.
Rodas de conversa, mesas de debate, palestras, seminários são a minha preferência de formação. Ultimamente eu ando muito afetada pelo racismo que vejo nos movimentos de esquerda - e até mesmo nos feminismos - e por isso tenho procurado me aproximar do debate que fazem as mulheres negras e as feministas negras. Como eu faço essa aproximação? Bem, eu conheço algumas mulheres negras feministas e pedi/peço a elas sempre que me indiquem autoras ou pergunto se têm artigos a me recomendar. Fico atenta às rodas de conversa - semana passada mesmo eu estive no Cine-Clube do Coletivo de Mulheres da UFRJ que o tema foi mulheres lésbicas e negras e ontem (dia 26) eu estive na roda de conversa sobre feminismo negro no Brasil, construída pelo Coletivo Olga Benário. E quando eu estou nesses espaços, eu sou atenta ao que ouço, eu coloco minhas dúvidas e, ao final, eu me aproximo das pessoas de cuja fala eu gostei e peço mais referências.
Dá trabalho? Claro que dá. Ontem, por exemplo, choveu e foi uó chegar na PV. Mas eu não quero ser mais uma mulher feminista branca racista, eu quero estar efetivamente ao lado das mulheres que estão ao meu lado na luta contra uma sociedade de desigualdades, eu quero desconstruir meu próprio racismo, eu quero combater o racismo na sociedade, porque entendo que TEMOS QUE SER TRATADAS DE FORMA IGUAL pelo simples fato de sermos todas humanas.
Dá trabalho? Claro que dá. Ontem, por exemplo, choveu e foi uó chegar na PV. Mas eu não quero ser mais uma mulher feminista branca racista, eu quero estar efetivamente ao lado das mulheres que estão ao meu lado na luta contra uma sociedade de desigualdades, eu quero desconstruir meu próprio racismo, eu quero combater o racismo na sociedade, porque entendo que TEMOS QUE SER TRATADAS DE FORMA IGUAL pelo simples fato de sermos todas humanas.
E é assim que uma pessoa que quer uma sociedade melhor para si age: buscando entender porque a sociedade não é boa para as pessoas a volta dela e buscando uma sociedade melhor para todas e todos. Queremos amor? Sim, queremos amor. Somos amorosxs. Queremos zuera? Sim, queremos zuera. Somos zuerxs. Mas eu não quero uma zoeira que seja ok pra mim, mas que massacre minhas companheiras negras ou que esculache meus companheiros viados afeminados, eu não quero uma zoeira e nem um amor que para acontecer precise reforçar práticas que há séculos vêm derramando sangue. Pq não falar de um assunto é deixar que ele se perpetue e eu não quero que haja perpetuação de racismo, de machismo, de transfobia, de preconceito de classe e de imperialismo.
E você, que tipo de amor você quer?
PS: O post é gigante. Quem leu, desculpe, cês me conhecem, eu falo demais. É tão gigante que nem eu quis revisar.
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Salve a polícia militar e os homens de bem!
Chego ao Centro Cultural da Justiça Federal e me deparo com a cena de 10 crianças negras sentadas no chão tomando dura da polícia. Paro ao lado, escuto e converso com os policiais para saber o que está havendo, qual o fato típico.
- Você viu a reportagem da Globo? A polícia tá instruída a remover todos os menores andando sozinhos no centro pra abrigo.
- Todos?
- Todos.
- Vamos dar uma volta na Cinelândia, então, pra ver quantos menores têm andando sozinhos?
- Não são toooodos. Só os que tão desacompanhados e andando em bando.
- Hmm os negros que estiverem em grupo.
- Negro, branco, qq cor. A senhora tá vendo só negr.. - Ele mesmo se interrompe quando olha pro grupo de crianças.
- To vendo só negro sim. É só pobre. Vc acha coincidência?
- A senhora viu a reportagem da Globo?
- Meu senhor, além de cidadã interessada eu to te perguntando pq sou advogada. E não assisto a Globo, mas conheço a lei. A polícia só pode agir de acordo com a Lei. E a presunção legal é de inocência. E a liberdade é de circulação.
- Não, mas no Centro eles não podem andar não.
- Vc tá me dizendo que crianças negras e pobres que andam em grupo não têm acesso à cidade delas? Não têm direito à cidade? Oficial, isso não está em nenhuma legislação. Se o senhor flagrou algum delito, conduz quem cometeu à DP, mas tem a obrigação de soltar as demais crianças.
- A senhora fala então, com o responsável da operação, que eu só to obedecendo ordens.
- Você viu a reportagem da Globo? A polícia tá instruída a remover todos os menores andando sozinhos no centro pra abrigo.
- Todos?
- Todos.
- Vamos dar uma volta na Cinelândia, então, pra ver quantos menores têm andando sozinhos?
- Não são toooodos. Só os que tão desacompanhados e andando em bando.
- Hmm os negros que estiverem em grupo.
- Negro, branco, qq cor. A senhora tá vendo só negr.. - Ele mesmo se interrompe quando olha pro grupo de crianças.
- To vendo só negro sim. É só pobre. Vc acha coincidência?
- A senhora viu a reportagem da Globo?
- Meu senhor, além de cidadã interessada eu to te perguntando pq sou advogada. E não assisto a Globo, mas conheço a lei. A polícia só pode agir de acordo com a Lei. E a presunção legal é de inocência. E a liberdade é de circulação.
- Não, mas no Centro eles não podem andar não.
- Vc tá me dizendo que crianças negras e pobres que andam em grupo não têm acesso à cidade delas? Não têm direito à cidade? Oficial, isso não está em nenhuma legislação. Se o senhor flagrou algum delito, conduz quem cometeu à DP, mas tem a obrigação de soltar as demais crianças.
- A senhora fala então, com o responsável da operação, que eu só to obedecendo ordens.
Fui e o responsável pela operação, Capitão Ricardo Vidal, do 5ºBPM me ignorou e só avisou que as crianças seriam levadas pra DPCA.
Durante esse diálogo todo, uma multidão de cidadãos "de bem" atrás de mim xingava. A mim. Não à polícia. Que eu só tava ali pq não tinha sido assaltada. Que se eu tava com pena, levasse pra casa. Que tinha espaço no camburão e que eu fosse junto.
Irada, me voltei a eles (homens, todos) e falei que eles não tinham nada a ver com isso, que eu faço o que quiser e ajo como quiser e foda-se o que eles pensam. E saí.
Irada, me voltei a eles (homens, todos) e falei que eles não tinham nada a ver com isso, que eu faço o que quiser e ajo como quiser e foda-se o que eles pensam. E saí.
Um cara mais inflamado veio na minha direção me interpelar, um segundo veio me segurar pelo braço. Eu me voltei e mandei me soltar e tirei o braço. Já tava na escada do CCJF e ele veio atrás de mim pra me segurar e continuar me afrontando com violência. Eu mandei ele me largar aos gritos e ele continuou vindo na minha direção até que o segurança do CCJF se colocou entre a gente. O cara? Ficou do lado de fora gritando que eu era piranha e que queria ver eu ser corajosa de mandar ele à merda do lado de fora !- rua.
Um salve aos cidadãos de bem. Um salve à Polícia Militar inconstitucional do Brasil.
**Original em: https://www.facebook.com/heloisamelino/posts/10203068480863455?pnref=story
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Achismos sobre as eleições
Talvez seja cedo pra trazer uma análise como essa - que, aliás, nem é uma análise, é um achismo. Não acredito que a Dilma e o PT vão reconhecer a demanda que as mulheres (cis e trans) e as pessoas LGBT há tanto vêm reivindicando: o direito a autonomia sobre o próprio corpo; mas algo que acho que se pode tirar de positivo desse período eleitoral que passamos foi a representatividade feminina.
Eu sei que eu vivo numa bolha composta por pessoas minimamente críticas - essa bolha foi formada de maneira deliberada e voluntária -, mas o tempo todo o que eu vi foi a opinião pública sendo disputada por mulheres. As pessoas mais à esquerda pensavam Dilma ou Luciana Genro; as pessoas menos à esquerda, Dilma ou Marina. As pessoas mais à direita, ficaram entre Dilma e Aécio
ou Dilma e Marina.
ou Dilma e Marina.
Em nenhum momento a disputa de opiniões que eu testemunhei deixou de incluir uma mulher. E acho que isso traz outra visão às mulheres do país inteiro, acho que muitas mulheres viram-se ali minimamente representadas e talvez essa representação possa servir pra aumentar sua (nossa!) auto-estima enquanto grupo político. Talvez seja inocência minha, eu posso estar falando isso pq meus privilégios me cegaram a outras questões, posso estar falando isso também com a ingenuidade de quem busca ganhos (ainda que mínimos) em qualquer disputa.
Eu chego até a pensar que a presença da Marina e da Luciana Genro (principalmente desta) possa ter servido pra dar mais força à Dilma num segundo mandato.
Eu chego até a pensar que a presença da Marina e da Luciana Genro (principalmente desta) possa ter servido pra dar mais força à Dilma num segundo mandato.
Torço para que as apontadas de dedo da Luciana na cara do Danilo Gentili, na cara do Aécio e na cara da própria Rede Globo de Corrupção possam ter servido para que mulheres que nunca tinham pensado que podiam colocar o dedo na cara de poderosos passem a fazer isso.
Pode ser só meu jeito Poliana de enxergar essas últimas eleições.
Pode ser só meu jeito Poliana de enxergar essas últimas eleições.
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Não existe racismo no Brasil
[Não existe racismo no Brasil]
Estava eu, linda, loira e japonesa, voltando de uma aula fantástica daJaqueline Gomes de Jesus sobre racismo no Brasil e de um jantar phynno de um subway requi(e)ntado com as divas Glaucia Tavares eLorena Braga, quando pego o busão na Lapa direção Copacabana. Ao virar na Glória, uma blitz. O policial faz sinal pra parar. Estranho, nunca estive em nenhum onibus que parou. Quem será que a polícia considerou sujeito suspeito? Quando vi que havia um rapaz negro (jura q vc já nao sabia?), cabelos com dread. Olhei pra fora, o policial que mandou parar olhava fixamente pro cara.
Entrou um policial pela frente do bus, dois pela porta de trás. O da frente colou o olho no rapaz negro e ordenou "Revista obrigatória, todo mundo com as mãos no banco da frente, por favor, pra colaborar". Nem um pio no ônibus. "Ali, revista a daquele ali que reclamou". O policial que entrou por trás, burro, nao entendeu e perguntou quem. "O de dread". Os dois policiais se dirigiram a ele.
Imediatamente me levantei e fui na direção do rapaz, q tava acompanhado por duas amigas a quem eu identifiquei brancas. Oficiais, boa noite. E me dirigi pro rapaz. Senhor, boa noite, eu sou advogada e ofereço a representação, a título gratuito, para acompanhar a revista, se o senhor desejar. "Eu quero." respondeu o rapaz assustado.
Estava eu, linda, loira e japonesa, voltando de uma aula fantástica daJaqueline Gomes de Jesus sobre racismo no Brasil e de um jantar phynno de um subway requi(e)ntado com as divas Glaucia Tavares eLorena Braga, quando pego o busão na Lapa direção Copacabana. Ao virar na Glória, uma blitz. O policial faz sinal pra parar. Estranho, nunca estive em nenhum onibus que parou. Quem será que a polícia considerou sujeito suspeito? Quando vi que havia um rapaz negro (jura q vc já nao sabia?), cabelos com dread. Olhei pra fora, o policial que mandou parar olhava fixamente pro cara.
Entrou um policial pela frente do bus, dois pela porta de trás. O da frente colou o olho no rapaz negro e ordenou "Revista obrigatória, todo mundo com as mãos no banco da frente, por favor, pra colaborar". Nem um pio no ônibus. "Ali, revista a daquele ali que reclamou". O policial que entrou por trás, burro, nao entendeu e perguntou quem. "O de dread". Os dois policiais se dirigiram a ele.
Imediatamente me levantei e fui na direção do rapaz, q tava acompanhado por duas amigas a quem eu identifiquei brancas. Oficiais, boa noite. E me dirigi pro rapaz. Senhor, boa noite, eu sou advogada e ofereço a representação, a título gratuito, para acompanhar a revista, se o senhor desejar. "Eu quero." respondeu o rapaz assustado.
Uma moça, ao fundo do onibus, a quem identifiquei negra questionou a ação. "Engraçado. Ninguém reclamou. Pq vcs foram justo nele?" uma outra apoiou o protesto. As amigas do rapaz também protestaram. Vendo que alguma coisa se passava, o comandante da operação entra pela porta de trás: "Algum problema aí?"; ao que o policial, que já fazia a revista responde "Eu vim revistar o rapaz e essa moça se alterou e veio dizer que era advogada e ia acompanhar". Essa moça não, doutora. E eu vim oferecer meus serviços de representação, ele aceitou. O comandante virou-se pro rapaz
C: Você tá sendo alvo de alguma agressao? - O rapaz respondeu:
R: Constrangedor, né... Tô aqui de boas e o cara vem só me revistar?
C: Mas ele te tratou de alguma forma errada? A revista tá dentro da lei.
R: O policial ali da frente que mandou ele revistar o negão de dread.
Nisso, um homem cisgênero branco aparentemente heterossexual (sempre eles, ne? omis)
O: Eiei! Ele nao te chamou de negão, não! Falou que vc era o de dread. Negão, nao.
Eu virei pro omi: E quem foi que perguntou alguma coisa ou convidou você a falar?
O: Ué, vc tá aí falando, toda toda.
- Eu estou aqui na qualidade de advogada, to trabalhando.
O: Eu sou advogado também. (exaltado, claro)
- Advogado o que?! Advogado de quem? Do Estado? E vc lá tem procuração pra representar o Estado? Eu acabei de receber a procuração aqui desse senhor.
C: Você tá sendo alvo de alguma agressao? - O rapaz respondeu:
R: Constrangedor, né... Tô aqui de boas e o cara vem só me revistar?
C: Mas ele te tratou de alguma forma errada? A revista tá dentro da lei.
R: O policial ali da frente que mandou ele revistar o negão de dread.
Nisso, um homem cisgênero branco aparentemente heterossexual (sempre eles, ne? omis)
O: Eiei! Ele nao te chamou de negão, não! Falou que vc era o de dread. Negão, nao.
Eu virei pro omi: E quem foi que perguntou alguma coisa ou convidou você a falar?
O: Ué, vc tá aí falando, toda toda.
- Eu estou aqui na qualidade de advogada, to trabalhando.
O: Eu sou advogado também. (exaltado, claro)
- Advogado o que?! Advogado de quem? Do Estado? E vc lá tem procuração pra representar o Estado? Eu acabei de receber a procuração aqui desse senhor.
O comandante da operação mandou revistar as amigas, o policial foi com as mãos dele abrir as bolsas dela. O comandante veio revistar minha bolsa e ME pediu pra abrir a mochila, bolsa e eu mesma mostrar o que tinha. Não tendo encontrado nada, foram todos embora e o ônibus seguiu. O omi ficou lá achando que tinha dado lição de moral na polícia. É, grande lição a sua, de silenciar um negro que tá falando que foi alvo de racismo, ô! De boa, nem fala comigo não.
O rapaz negro e suas duas amigas brancas, que conversavam animadxs antes da intervenção racista policial, passaram o restante do trajeto em silêncio.
O rapaz negro e suas duas amigas brancas, que conversavam animadxs antes da intervenção racista policial, passaram o restante do trajeto em silêncio.
E a Jaqueline dizia que mais de 50% da população de pessoas negras já passou por uma dura da polícia ("baculejo", como dizem em Brasília). O "negão do dread" entrou pra estatística. Não existe racismo no Brasil?
original em: https://www.facebook.com/heloisamelino/posts/10202926678638488
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